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Pré-escolar: Preparação para a escola
 
E porque não caminhar às recuas para falar de números negativos?

A neurologista e professora norte-americana Judy Willis, da Universidade da Califórnia, estudou a relação entre cérebro e aprendizagem para perceber como captar a atenção dos alunos. O EDUCARE.PT esteve à conversa com a especialista que afirma que os professores são pessoas especiais.  

A norte-americana Judy Willis, da Universidade da Califórnia, tem experiências únicas que gosta de partilhar com o mundo. É neurologista e professora. Escreveu seis livros para educadores e pais. É uma figura de referência na investigação de estratégias de ensino, baseadas no funcionamento do cérebro e potenciadoras de comportamentos de aprendizagem. Como neurologista estuda como o cérebro se comporta, de que forma a informação se compartimenta, como se estimulam os neurónios, o que é ou não filtrado. Como professora, aplica o que a ciência lhe ensina através de uma abordagem que inclui a motivação, a atenção, a curiosidade, a imaginação.

A especialista internacional em temas relacionados com a mente, o cérebro e a educação, esteve pela primeira vez em Portugal para participar na I Conferência do Instituto de Desenvolvimento e Estimulação do Potencial Humano. “Neurociências, ciências cognitivas e educação” foi o tema da sessão que teve lugar na Universidade Lusíada, em Lisboa. O EDUCARE.PT conversou com Judy Willis no Porto dois dias antes da conferência. Entremos na sala de aula. O que é visualmente sempre igual passa despercebido. Mas o que é diferente capta imediatamente o olhar e o reino das previsões começa a funcionar. “A nossa atenção está programada para selecionar o que não é expectável”, refere.

Desta forma, tudo o que sai da rotina provoca curiosidade, prende a atenção dos alunos de qualquer idade. Judy Willis dá exemplos do que pode ser feito para abrir o apetite para a lição. Uma peça de roupa diferente do professor, um chapéu na cabeça, uma gaiola em cima da secretária, um cheiro na sala pouco habitual, movimentos que não costumam ser feitos, caminhar às recuas. “Se os professores caminharem às recuas é uma coisa diferente. É um movimento pouco comum”. E a partir daqui a aprendizagem pode ser uma experiência marcante.

“Começar com coisas simples, mas pouco habituais. Uma imagem pouco comum, caminhar de outra forma. Os alunos ficam curiosos porque não é muito habitual.” O que surpreende prende a atenção. “O cérebro fica curioso e começa a fazer previsões.” Por que razão há uma coisa diferente na sala de aula naquele dia? Os alunos tentam adivinhar, por exemplo, por que razão o professor decidiu caminhar para trás. “Será que iremos falar de números negativos? Ou será por que vamos recuar na História? E assim os alunos escutam com atenção o que o professor tem para explicar porque querem perceber o que esse elemento não habitual faz na sala de aula”, explica.

Mudar para ser diferente, aproveitando essa diferença para ensinar sem muita dispersão. “Lembram-se melhor do que o professor disse. Ficam atentos e curiosos com o que se vai passar. Gostam e aprendem. É lógico e funciona.” E há também à tática das canetas de cores diferentes. O professor escreve no quadro a vermelho e os alunos copiam a vermelho para que prestem a máxima atenção ao que está escrito. Ou então podem escrever a verde ou a amarelo.

E se os alunos vivem agarrados às novas tecnologias, aos computadores, aos dispositivos portáteis, porque não aproveitá-los na sala de aula para aprender a lição? Sugar o que de bom essas ferramentas têm para abordar determinado assunto é um caminho a explorar. Judy Willis usa a tática dos videojogos. Porque não colocar os alunos a discutir um tema e depois desafiá-los a fazer um sumário da aula como se estivessem a utilizar o Twitter. Ou seja, explicar o que aprenderam nessa lição em 140 caracteres, espaços incluídos. “Têm de pensar sobre o que aprenderam para escrever em 140 caracteres”. O que obriga mesmo a pensar. E, habitualmente “percebem que podem fazer melhor quando veem o que os outros fizeram”. Porque há esmero nesses resumos.

“São desafios que podem ser lançados para podermos ensinar melhor do que antes. Se temos 20 minutos de leitura ou de escrita e depois se pede aos alunos que condensem o que escutaram em poucas palavras, eles têm de demonstrar o que realmente aprenderam.” Nesse processo de resumir, têm de provar que compreenderam a lição. Judy Willis recorre a essas estratégias e garante que resultam.

Cometer erros é o maior medo

Uma sala de aula tem de espelhar um ambiente seguro, onde crianças e jovens se sintam protegidos. “O maior medo das crianças, numa aula, é cometer erros em frente aos outros. Não gostam de estar errados.” A neurologista tem maneiras de contornar a situação, não aumentando a ansiedade de quem aprende. Os alunos podem escrever as respostas num caderno ou num quadro que só o professor vê. Durante a aula, o docente pode andar pela sala e verificar as respostas que cada aluno dá. E essa informação fica só com o docente. Só o professor sabe quem falha. “Falam com o professor de uma forma privada, sem mais ninguém ver.”

Ensinar não é fácil. “As pessoas que escolhem ensinar são muito especiais. O trabalho não é bem pago e é difícil. Mas as pessoas pensam que ensinar é fácil, que basta ler o que os livros dizem, que os professores terminam a lição e vão-se embora e não fazem mais nada. Não é verdade. Os professores têm os dias preenchidos, levam trabalho para casa, muitos trabalham no fim de semana. E fazem-no porque se preocupam com o que as crianças aprendem”. Por isso, na sua opinião, também é importante que os professores se encontrem com professores para partilhar ideias, comentar estratégias, falar de experiências.

Na sua perspetiva, um dos maiores desafios dos próximos anos é saber lidar com o volume de informação, com os detalhes que não param de se anexar ao conhecimento, com a vontade de conhecer mais e mais. De pormenorizar tanto a informação que, por exemplo, se chega à conclusão que Plutão afinal não era um planeta. “A informação vai continuar a mudar e quanto mais sabemos, mais queremos testar o que sabemos.” Na sala de aula, é importante potenciar a curiosidade para, por exemplo, perceber como uma célula se transforma em duas. Olhar para o microscópio, pesquisar na Internet, ler livros sobre o assunto.

Ju.dy Willis avisa que a densidade de informação e a velocidade do conhecimento não dão tempo para respirar, não permitem que os professores repitam as matérias. Portanto, o momento em que se ensina deve ser, de facto, importante e quase inesquecível para que se possa seguir em frente. “Há cada vez mais e mais informação, mas menos tempo para voltar a ensinar por causa de tantas distrações.” Por isso, a estratégia de usar coisas diferentes na aula. “É importante que os alunos desconstruam o seu conhecimento, retenham a informação e utilizem o background que adquiriram para então detalharem mais e mais a informação.”.

Cérebro retém o que muda

Em Lisboa, na I Conferência IDEPH - Neurociências, Ciências Cognitivas e Educação, que teve lugar na Universidade Lusíada na passada sexta feira, Judy Willis, neurologista e professora, falou sobre neurociências e aprendizagem ou de como preparar o cérebro infantil para o sucesso no século XXI. Falou de neurociências na sala de aula, de estratégias para maximizar a atenção, a memória e a motivação dos alunos. Dizer aos alunos prestem atenção, numa aula, deixou de funcionar.

O que é que se passa, perguntámos. Judy Willis quis perceber por que razão isso acontece, como as experiências tinham mudado desde os tempos em que tinha sido aluna. “Hoje há muito mais curricula, muito mais informação. Cada assunto tem muitos mais detalhes. O sistema está repleto de pormenores, de factos, em cada nível de ensino, que os alunos na escola quase não precisam de prestar atenção, mas sim memorizar nomes, factos, coisas, sem explorar, sem desenhar imagens, sem movimento, sem interação entre grupos”, refere. Muita informação, matéria despejada em cada lição, memorizar dados, fazer testes.

“Há coisas melhores para fazer com o tempo. A escola, antes desta era da tecnologia e da informação, era um sítio para estar com amigos, com colegas da mesma idade, e em que estar sentado e prestar atenção era quase uma 'profissão' - e depois ainda havia tempo para fazer outras atividades.” Os tempos mudaram e hoje há mais elementos a ter em conta nesta equação. Há a Internet, o Facebook, jogos de computadores. “Sabendo que estas coisas não se vão embora, decidi usar o que sabia sobre o cérebro para perceber o que poderia ser feito para que os alunos prestassem atenção.” Há uma parte primitiva do cérebro, tal como acontece nos animais, que dá indicações ao cérebro de quando a informação passa e de quando a informação não passa. “Há muita informação ao redor e a toda a hora. O que os professores dizem é uma parte dessa informação, há ainda o que se passa lá fora.”.

“O cérebro seleciona o que é diferente, o que muda.” O que é diferente de ontem. Há um filtro no cérebro atento. Tal como no reino animal. “Os animais, por exemplo, não prestam atenção à montanha que é a mesma de ontem, à temperatura que faz se for igual à de ontem, aos mesmos sons que escutam, ao rio que continua a correr, mas se há um pequeno rato a passar ou o uivo de um lobo, aí é diferente”. É essa informação que entra nesse filtro. É isso que fica.

 
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